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sábado, 24 de setembro de 2011

Góspel de ontem


do original de Antognoni Misael

Janires Magalhães Manso foi um cantor de música gospel com início de carreira no fim da década de 1970. Fundou a banda Rebanhão em São Paulo, no ano de 1979. Um ano depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde formou um novo grupo, mas que permaneceu com o mesmo nome. Após gravar quatro discos com o Rebanhão, Janires deixou a banda em 1984 e foi para Belo Horizonte, lugar onde conheceu um novo time de músicos e juntamente com eles formou a Banda Azul. Depois de duas gravações com a Banda Azul, Janires morreu em um catastrófico acidente automobilístico, quando voltava do Rio de Janeiro para Belo Horizonte, no ano de 1988.

Sempre que dou uma pesquisada na nossa música cristã de hoje em busca de algo novo tenho sempre a impressão de encontrar “mais do mesmo”. É sério! Não bastasse as centenas de comunidades ‘estilo louvor’, os famosos globais da Som Livre, a panelinha da MK – na ressalva, claro, da turma alternativa que se mantém na linha do Elo, Logos, VPC, João Alexandre, Jorge Camargo e todos dessa vertente – sinto bastante falta de gente criativa, irreverente e de peito aberto para enfrentar as engrenagens desse mundão. Então parei um pouco e pude me perguntar “onde estão os ‘Janires’ de hoje”?

Não sei vocês, mas sinto muita falta de artistas evangélicos que formem opinião pra essa imensa juventude do “gospel”; que provoquem a cabeça e mentalidade juvenil promovendo nessa gente uma adoração com entendimento. Noto que é tão comum ver muitos ‘fãs’ lotando shows e gravações de DVD’s da turma gospel, mas que, quando confrontadas com a dura realidade da Igreja e do Brasil, apenas reproduzem os atos e discursos “proféticos” dos seus ícones sem que se portem de forma inteligente diante do mundo e das pessoas. Então quando ouço os discos do Grupo Rebanhão e/ou Banda Azul (ambas de idealizadas por Janires) tenho a sensação de que retrocedemos.

Volto a me perguntar: “onde estão os ‘Janires’ de hoje”? Onde estão os que ironizam os políticos corruptos e os edônicos comerciais da TV? Onde estão os que parodiam os filmes e imbecilizam as novelas? Cadê os ‘Janires’ que falam das realidades, de sonhos, fracassos, frustrações, do pecado e da miséria, mas sem nunca esquecer de revelar o fulgurante contraste da estonteante luz, a indizível graça e a paz de Jesus Cristo? Gente, chega de ‘astro Gospel’ fazendo arquivo confidencial no Faustão e recebendo homenagem no Raul Gil!

Recordo que o Janires não era bem visto pelo “clero” evangélico da época. Era rejeitado pela roupa, cabelo, jeito de falar e seu estilo de música. Certa vez ao promover um evento em praça pública em São Paulo no intuito de tocar um rock pra evangelizar a turma descrente, foi surpreendido pelas lideranças de algumas igrejas evangélicas as quais (sob inspiração da ditadura) proibiram que seus membros presenciassem aquele louvor em via pública.

Gente, quando julgamos pela aparência perdemos a oportunidade de nos surpreender com a essência das pessoas – os que julgavam o Janires realmente não o conheciam – ele era um exemplo vivo de cristão autêntico.

Num congresso de louvor que estive presente na cidade de Campina Grande-PB, ouvi do grande Paulão (do Grupo Logos) a curiosa história do dia em que o encontrou em um evento evangélico. Ele descreveu que viu um cara que se vestia bem diferente, roupa meio jogada, parecendo um hippie, com uma mochila de lado, sentado na escadaria do prédio e lendo um livro; ao achar aquela aparência fora dos padrões da época relutou em não julgar, e quando foi notado pelo próprio Janires, este rapidamente se levantou, ofereceu a paz do Senhor e um forte abraço. Paulão revelou que nos olhos daquele jovem via-se alegria e amor pelas pessoas; e aquele livro que o Janires atenciosamente lia na escada era uma Bíblia bastante gastada e cheia de anotações.

Janires era intenso. Em plena época de ditadura no Brasil, não se conformava com a repressão militar e as injustiças. Quando integrante do Rebanhão, mostrou sua crítica em “Casa no céu”: “Lá não terá vizinho reclamando o aumento da gasolina”, “Lá não terá buraco no meio da rua”, “Lá não terá trombadinha nem trombadão desrespeitando os 80km/h fugindo da poluição”. Às vezes direcionava sua insatisfação aos próprios evangélicos. Na música “Etc e tal” disse: “Embaixo da ponte as pessoas roubando e matando… em cima da ponte…crentes tranquilamente se achando no direito de ficar descontentes com Deus, não comprou carro novo não”… Na sua composição mais conhecida, “Baião”, fez uma análise da situação social do planeta: “Sem Jesus Cristo é impossível se viver nesse mundão, até parece que as pessoas estão morando no sertão, é faca com faca, é bala com bala, metralhadoras e canhões, até parece que a faculdade só tá formando lampiões… e o dinheiro anda mais curto do que perna de cobra”…

Pelo que li e ouvi daqueles que viveram próximo Janires, descobri que ele não andava ansioso com a vida, não se apegava a fama e a bens materiais. Quando morreu, ficou de legado apenas algumas roupas e seus equipamentos musicais. Um ex-integrante do Rebanhão, Paulo Marotta, confidenciou o seguinte :

“Janires não era um homem comum. Ele não se preocupava em casar, constituir família, arrumar um bom emprego, comprar isso ou aquilo, essas coisas que têm tanta importância para nós. Vivia do que produzia. Sua música, seu artesanato: camisetas e impressos em silk-screen. Frequentemente recebia ofertas, às vezes muito boas, mas sempre achava alguém que precisasse mais do que ele daquele dinheiro. Assim como recebia, dava generosamente”.

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Só porque você ficou, curioso a partir desse momento tem na aba e-música a rádio Rebanhão. Vai ver!

site BACANA sobre música cristã
http://artedechocar.blogspot.com

site com a discografia do Rebanhão
http://bandarebanhao.blogspot.com/p/discografia.html

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Música bíblica

instrumentos hebreus dos tempos do Antigo Testamento

A música foi criada por Deus e já existia mesmo antes de haver o homem. No livro de Jó, o mais antigo das Escrituras, lemos que quando Deus lançava os fundamentos da terra, as estrelas da alva cantavam e todos os filhos de Deus rejubilavam (Jó 38.1-7). Se compararmos esta passagem com Isaías 14.12 onde Lúcifer é chamado de estrela da manhã e filho da alva, podemos entender que, mesmo antes da criação do universo, havia no céu uma hoste angelical separada para cantar louvores ao Eterno Deus, da qual Lúcifer parece ter sido o regente (Ez 28.12-16).

O homem é criatura de Deus e recebeu a música como um dom divino. Mesmo os povos mais primitivos são dotados de musicalidade. Não existe nem um povo que não tenha sua própria música, assim como não existe ninguém que não aprecie algum tipo de música. Vivemos em um universo musical onde, desde que nascemos, somos envolvidos pela música e aprendemos a apreciá-la.

A primeira passagem bíblica referente a música e instrumentos musicais se encontra em Gênesis 4.21. O texto se refere às bases da cidade edificada por Caim e seus descendentes. Entre os pilares daquela sociedade primitiva encontramos a agricultura (v.20), a indústria (v.22) e a música (v.21). Vemos nesta passagem a importância da música na vida do homem. Os profetas bíblicos eram também músicos. Durante o êxodo, a profetisa Miriã conduziu as mulheres em danças e cântico usando seu tamborim e celebrando a vitória do Senhor sobre os egípcios (Ex 15.20-21). Em 1 Samuel 10.5, Saul encontra um grupo de profetas que profetizavam acompanhados de seus instrumentos musicais. Isaías compôs canções como a encontrada no capítulo 26:1-6 de seu livro.

A música na Bíblia era dividida em instrumental (Sl 33.2,3 e 150) e vocal (Sl 98.5; 2Sm 19.35 e At 16.25). Os títulos de 55 salmos contem instruções para os regentes sobre a execução de vários instrumentos musicas e das melodias que deveriam ser utilizadas no acompanhamento.

O fator mais interessante quando observamos a música na Bíblia é a sua rica variedade e as poucas restrições quanto ao seu uso. Há variedade de instrumentos, variedade de sons e volumes, variedade de adoradores, variedade de posturas e modos, variedade de lugares, variedade de ocasiões e variedade de motivos.

Sendo a música um dom de Deus ao homem, a melhor forma de agradecer a Deus por esta dádiva é fazer música para seu louvor e Sua glória. Em Hebreus 13.15, somos exortados a louvar a Deus de duas maneiras: por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome.

A música como dever religioso – que deve ser oferecida como sacrifício de louvor – é o que nós chamamos de música sacra, ou sagrada, música de louvor e adoração. Existe, no entanto, uma música espontânea, que brota de um coração cheio da vida de Deus, através do Espírito Santo – é o fruto dos lábios que confessam o seu nome (Ef 5.18,19). Esta música, que não deixa de ser louvor a Deus, não precisa ser feita de palavras ou expressões religiosas. Ela reflete as experiências da vida de alguém que conhece a Deus e não precisa estar afirmando isto com os lábios para que as pessoas tomem conhecimento. Sua vida é uma expressão de sua intimidade com o Criador. É por este motivo que a música encontrada nas Escrituras é ampla e está relacionada a todas as áreas da vida humana.

A adoração dos judeu nos tempos bíblicos era um estilo de vida, não uma atividade confinada aos cultos realizados no templo no dia de sábado. Sendo assim, a música utilizada por eles estava relacionada a uma grande variedade de atividades diárias e era usada com diversos fins e propósitos, tais como: para promover alegria (Gn 31.27; Ec 2.8); na guerra (Js 6 e 2Cr 20.21-22); como expressão de arte e poesia (Cantares de Salomão); como forma de protesto (Sl 73); para confissão (Sl 32 e 51); para oração (Sl 7, 38, 64, etc.); para testemunho (Sl 23, 46, etc.); para terapia (1Sm 16.14-17, 23); como dever religioso (Sl 81.1; 95.1; Is 30.29); como expressão de lamento e tristeza (Lamentações).

A Bíblia não nos fornece instruções específicas sobre estilos musicais. Sabemos apenas que instrumentos de diversos tipos eram usados pelos judeus. Estes instrumentos eram divididos em três categorias: de cordas, de sopro e de percussão. Foi o Rei Davi quem promoveu o uso de tais instrumentos, além de instituir os cantores vocais e regentes de música (1Cr 15 e 16). Parece, no entanto, não ter havido nenhuma ordem divina para isso, senão a iniciativa pessoal e a criatividade de Davi.

No Novo Testamento, os cristãos primitivos aparentemente nem sequer usavam instrumentos na sua adoração a Deus. Isso porque o uso de instrumentos no Velho Testamento estava associado com as ofertas e cerimônias do templo, que não aconteciam nas sinagogas após a Diáspora. Desta forma, nos dias de Jesus e dos apóstolos, o canto vocal a capela (sem instrumentos) era o modo usado para se louvar a Deus. Alguns dos chamados pais da igreja chegaram até mesmo a considerar os instrumentos usados no Velho Testamento como símbolos da graça cristã (Eusébio, c. 260 – c. 340). Somente após a Reforma no Século 16 é que a adoração com instrumentos musicais voltou a ser aceita na Igreja Cristã.

Encontramos também nas referências bíblicas um incentivo a inovação na hinologia e nos cânticos. Vários textos bíblicos falam de ocasiões em que o povo cantou algo novo a Deus. Exemplos disso podem ser vistos no cântico de Moisés (Êx 15) e no Magnificat de Maria (Lc 1.46-56). Alguém de outra época só entenderá completamente as letras desses cânticos se conhecer o contexto histórico no qual eles foram escritos. Assim é também com muitos dos salmos. Por isso somos exortados diversas vezes a apresentar a Deus canções novas que mostrem ao povo de nossa época o que Ele tem feito por nós (Sl 33.3; 40.3; 96.1; 98.1; 149.1; Ap 5.9). O cântico novo surge dentro de um contexto histórico e fala ao povo da época sobre algo que Deus tem feito. Este tipo de hinologia tem o poder de revelar que Deus está vivo, está presente, atuando na história humana.

Assim, apesar de a Bíblia estar repleta de recomendações e incentivos para que o homem adore ao Criador, a única instrução bíblica específica que temos de como deve ser essa adoração é a de Jesus à mulher samaritana: “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24).

A adoração a Deus, seja ela vocal ou instrumental, qualquer que seja o ritmo ou melodia, deve brotar no mais íntimo do ser humano como uma expressão de reconhecimento e reverência ao Criador.

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Esse texto, conta-se, foi originalmente publicado na Bíblia de Estudo Louvor e Adoração da Editora Fôlego, 2007. Eu apenas encontrei-o no armário de http://www.projeto242.com/2011/?p=38.