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sábado, 9 de novembro de 2013

Sabedoria de Salomão - os autores misteriosos

Salomão, na re-pintura de um famoso desenho de Gustave Doré

Faz tempo que estou ensaiando escrever sobre o livro Sabedoria de Salomão, às vezes simplesmente chamado de Sabedoria. Acho que eu sempre fiquei impressionado com o fato de um livro ser ao mesmo tempo tão religioso, tão humano e tão apócrifo. Faz a gente pensar... Se os livros da Bíblia são os únicos inspirados por Deus, o livro de Sabedoria foi um dos primeiros demitidos desse rol de obras sagradas (em outras palavras, suspeita-se que o autor não foi inspirado por coisa alguma). Se há livros fora da Bíblia inspirados por Deus, porque continuam fora? E se não houve inspiração nenhuma para esse livro, porque ele pesa tanto no coração a ponto de colocar religiosos acalorados em lados distintos da disputa?

Se repararmos bem, só os 10 Mandamentos, em toda a Bíblia, foram ensino racisticamente divino. Todo o restante são exemplos bons, ruins e duvidosos da vida de PESSOAS que se relacionaram com Deus. Pessoas que amaram, sofreram, tiveram ódio, festejaram, encheram a cara, tiveram vermes, bateram, apanharam, casaram, ajudaram, etc. Mesmo o código de leis de Moisés, talvez a parte mais legalista de toda a Bíblia, parece feito e ajustado para as pessoas que viviam junto dele. Paulo e Pedro também falaram (e até brigaram) de regras de comportamento, mas nelas transparece nitidamente um Paulo abandonado nas prisões e um Pedro receoso pelo seu status, a única riqueza de um pescador pobre e velho. Como poderiam não falar do que tinham o coração cheio?

1ª PARTE - PRÓLOGO E ADVERTÊNCIA AOS LEITORES (1.1 até 1.11)

"Somente o puro poderá ler esse livro"... É mais ou menos nesse tom que se inicia a narrativa. O autor dirige-se aos reis e adverte que o Senhor se afasta de qualquer forma de maldade, sendo alcançado somente pela simplicidade de coração. Assim a parte inicial adverte os leitores:

Aquele que profere uma linguagem iníqua, não pode fugir dele, e a Justiça vingadora não o deixará escapar; pois os próprios desígnios do ímpio serão cuidadosamente examinados; o som de suas palavras chegará até o Senhor, que lhe imporá o castigo pelos seus pecados. É, com efeito, um ouvido cioso, que tudo ouve: nem a menor murmuração lhe passa despercebida. (Sab 8.10)

E você preocupado com hackers...

2ª PARTE - O PODER DE DEUS (1.12 até 9.18)

O livro segue então fazendo uma ode ao poder do Senhor, identificado aqui também como a Sabedoria, como no livro de Provérbios. O Senhor/Sabedoria retribui de forma fantástica aos que o seguem em seus modos de vida, e também põe fim ao ímpio. A Sabedoria consiste em uma vida de pureza, como era o pensamento grego:

Não procureis a morte por uma vida desregrada, não sejais o próprio artífice de vossa perda. Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo devem cooperar para a salvação. Nelas nenhum princípio é funesto, e (a Morte, ou o Hades) não é a rainha da terra, porque a justiça é imortal. Mas, (a Morte), os ímpios a chamam com o gesto e a voz. Crendo-a amiga, consomem-se de desejos, e fazem aliança com ela; de fato, eles merecem ser sua presa. (Sab 1.12-15)

Existe uma diferença conceitual entre essa busca por pureza e o que Paulo descreve em suas cartas. Ele enumera princípios espirituais que devem governar a vida das pessoas: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança, e que se distinguem das "paixões carnais". Aqui, a pureza se aplica ao mundo carnal (o equivalente do atual "coma verduras", "pratique exercícios"). Tal filosofia de pureza é tipicamente grega e norteou muito do pensamento atual, além do pensamento ROMANO quando João, Jesus e os discípulos pregavam. Por isso, rapidamente a pregação do Cristianismo foi associada a uma moral de comportamentos que, de fato, NÃO APARECE nas falas do Senhor.

A idéia de morte apresentada no Velho Testamento, como uma punição ou destruição, aqui é pela 1ª vez contraposta com a Salvação, que inaugura o Novo Testamento:

Ele [o justo morto] agradou a Deus e foi por ele amado, assim [Deus] o transferiu do meio dos pecadores onde vivia. Foi arrebatado para que a malícia lhe não corrompesse o sentimento, nem a astúcia lhe pervertesse a alma. ... O justo, ao morrer, condena os ímpios que sobrevivem, e a juventude, atingindo tão depressa a perfeição, confunde a longa velhice do pecador. Eles verão o fim do sábio, e não compreenderão os desígnios do Senhor a seu respeito, nem por que ele o pôs em segurança. (Sab 4.10-17)

Embora muitos cristãos atribuam essa "mudança de entendimento" à pregação de Jesus, ela na verdade ocorreu um pouco antes e um tanto longe de Israel.

O filósofo grego-judeu Philon (20 a.C. - 50 d.C.) foi um dos que se puseram a estudar o judaísmo na Escola de Alexandria (anexa à Grande Biblioteca), acreditando que a interpretação criteriosa da Torá poderia conduzir o homem ao conhecimento de Deus (Sabedoria). Durante a perseguição do judeus pelo imperador Gaius Julius Caesar Augustus Germanicus (Calígula) quando se recusaram a prestar culto ao imperador, Philon fez a defesa dos judeus contra seus acusadores. Sua obra foi marcada pela idéia da "Salvação do justo", que ele via transparecer na Torá. Por exemplo, quando Calígula recusou-se a ouvir seus argumentos, Philon anunciou ao povo que "a raiva do imperador colocava Deus contra ele". Esse conceito difundiu-se enormemente em toda Roma e Grécia, de forma que a pregação libertária de Jesus talvez tenha sido surpreendente aos judeus pobres, mas certamente não era estranha aos Fariseus como Gamaliel, nem aos romanos como Saulo de Tarso.

A exposição sobre a Sabedoria é sem dúvida a parte mais religiosa do livro, colocando a ação divina como comandadora absoluta das ações humanas perpetradas pelos próprios humanos! E qual era o maior símbolo judeu de Sabedoria? Salomão.

SABEDORIA DE SALOMÃO

O 1º comentário sobre o livro Sabedoria de Salomão apareceu na obra do historiador romano Eusebius de Cesaréia (260-340 d.C.), que escrevia a história dos judeus a partir dos livros sagrados. Para os historiadores de hoje, só isso isso já desqualifica o livro como obra de um rei judeu de 950 a.C. Afinal, AONDE o livro teria estado em todo esse tempo que jamais se falou qualquer coisa dele? Além disso, a cópia mais antiga usa a palavra "sebasma" para identificar "ídolo". Essa gíria foi típica do reinado de César Augustus (63 a.C. - 14 d.C.), quando os imperadores começaram a ser cultuados como deuses... e o próprio livro fala muito sobre idolatria. Finalmente, o modo como foi escrito lembra muuuuito os discursos do de Philon de Alexandria.

Os vários períodos são semelhantes, assim há um consenso de que o livro de Sabedoria deve ter surgido nas últimas décadas a.C., certamente obra de um judeu altamente educado na política e filosofia da época. Talvez um intelectual da escola de Alexandria, até, pois as versões mais antigas estão em diversas línguas. Se fosse a obra de um intelectual, certamente teria sido importante... Mas salta aos olhos que o autor tenta descaradamente passar-se por Salomão:

Tu [Senhor] me escolheste como rei do teu povo e juiz dos teus filhos e filhas. Tu me mandaste construir um templo sobre o teu santo monte, um altar na cidade onde fixaste a tua tenda, cópia da tenda santa que tinhas preparado desde o princípio. ... Assim, as minhas obras ser-Te-ão agradáveis, poderei governar com justiça o teu povo, e serei digno do trono de meu pai. (Sab 9.7-12)

Por isso os Protestantes excluíram esse livro da Bíblia, "por não ser realmente obra da pessoa que o nomeia, ou de alguém que tenha presenciado os fatos que descreve". Quem exatamente foi o autor, ninguém sabe. Não era raro autores atribuírem as próprias obras a gente famosa, a fim de que fossem divulgadas. O valor do livro está em ele ser, cronologicamente, a última obra do Velho Testamento e assim nos deixar em conhecimento de como era o mundo quando Jesus nasceu.

A exposição histórica em favor de um autor “Salomão” é tremendamente humana. E certamente poucos livros mereceriam tanto o lugar de Apócrifo como esse, dada sua autoria fortemente fora da narrativa dos demais livros e deliberadamente feita para ser um instrumento de ensino religioso-filosófico para os reis.

A HISTÓRIA (10 ATÉ 19)

"Salomão" faz uma valiosa descrição da história judaica até o "seu reinado". Esse trecho tem a particularidade de ser bastante implícito, sem que os fatos seja enumerados, como seria de se esperar de um historiador alheio. Ao invés disso, ele fala como se falasse a um judeu capaz de "detectar" o conteúdo histórico em suas frases:

Quanto aos que a honram, a Sabedoria os liberta de sofrimentos; foi ela que guiou por caminhos retos o justo que fugia à ira de seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus, e deu-lhe o conhecimento das coisas santas. Ajudou-o nos seus trabalhos, e fez frutificar seus esforços. Cuidou dele contra ávidos opressores e o fez conquistar riquezas. Ela o protegeu contra seus inimigos e o defendeu dos que lhe armavam ciladas; e no duro combate, deu-lhe vitória, a fim de que ele soubesse quanto a piedade é mais forte que tudo. (Sab 10.9-12)

Nesse trecho, fala-se em Jacó fugindo de Esaú, sendo explorado por Labão e lutando contra o Anjo do Senhor. Através da história como é apresentada, podemos ter idéia de quais pontos eram valiosos e críticos para os habitantes da época:

  • o dilúvio tinha vindo por causa de Caim (10.4)
  • Abraão era irrepreensível diante de Deus (10.5)
  • as 4 cidades vizinhas a Sodoma eram interligadas e sucumbiram juntas ao fogo; a terra ao seu redor ainda era fumegante no tempo de "Salomão" (10.6)
  • José foi acusado injustamente (10.14)
  • Moisés se opôs a reis temíveis (11.16)
  • os egípcios foram engolidos pelo Mar Vermelho (11.19)
  • a 1ª Páscoa foi celebrada em meio a milagres (11.21)
  • com o Nilo tornado em sangue, a sede dos egípcios havia sido assustadora (11.8)
  • os egípcios foram punidos por sua adoração a animais "estúpidos" (11.15)
  • os judeus acreditavam que a punição dos egípcios havia sido pequena (11.17-19)
  • Deus ama tudo o que existe (11.24)
  • os antigos habitantes de Israel eram detestados por Deus, por causa de seus ritos mágicos e sacrifícios humanos, em especial de crianças (12.4-6)
  • Deus usa os animais em seus propósitos, dividindo-os em animais bons e “estúpidos” (12.8)
  • o Senhor é indulgente: após o pecado, há tempo para a penitência (12.18-19)

Provavelmente, esses pontos estão presentes na adoração cristã e judaica dos dias atuais ainda, com vários rebuscamentos permissíveis em épocas de paz. No caso, uma ênfase especial do autor que difere dos dias atuais está na importância ou qualidade dos animais e objetos associados a Deus. Entre os animais usados nas pragas do Egito, por exemplo, era importante que fossem “animais estúpidos” ou “sem valor”, como forma de humilhação. De fato, o adjetivo “desprezível” é usado constantemente com os egípcios e todo inimigo dos judeus, como uma reafirmação constante contra a submissão do povo que o autor se recusava a ver. Como podia o povo de Deus estar sob jugo de uma nação idólatra?

OS IDÓLATRAS

O autor de Sabedoria discorre sempre longamente sobre o Egito dos faraós, vinculando-o ao seu próprio tempo. Talvez lhe incomodasse muito o fato de estudar os textos hebraicos numa época em que os judeus eram dominados (pelos romanos) justamente numa cidade da terra onde haviam sido escravos. Sempre vinculada ao Egito aparece a idolatria de animais “estúpidos” e objetos “sem valor” construídos pelos próprios homens. Nisso ele elabora lindas parábolas sobre as formas pelas quais os homens se afastam do verdadeiro Deus: “São insensatos por natureza todos os que desconheceram a Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando suas obras” (Sab 13.1). É nesses trechos sobre a idolatria e o Êxodo que vemos a brilhante humanização do relato bíblico, com a transposição para os sentimentos humanos de assuntos fortemente teológicos.

1. Tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar agitável, ou a esfera estrelada, ou a água impetuosa, ou os astros dos céus, por deuses, regentes do mundo. (Sab 13.2)

2. Um lenhador cortou e serrou uma árvore fácil de manejar. Habilmente ele lhe tirou toda a casca, e com a habilidade do seu ofício, fez dela um móvel útil para seu uso. Com as sobras de seu trabalho, cozinhou comida, com que se saciou. O que ainda lhe restava, não era bom para nada, não passando de madeira torcida e toda cheia de nós; contudo, ele a tomou e consagrou suas horas de lazer a talhá-la; ele a trabalhou com toda a arte que adquirira, e lhe deu a semelhança de um homem, ou o aspecto de algum vil animal. Pôs-lhe vermelhão, uma demão de uma tinta encarnada, e encobriu-lhe cuidadosamente todo defeito. Em seguida, preparou-lhe um nicho digno dele. e o fixou à parede, segurando-o com um prego: foi por medo que caísse, que tomou este cuidado, porque sabe muito bem que ele não pode ajudar-se a si mesmo, pois não passa de uma estátua que tem necessidade de um apoio. Mas quando lhe implora por seus bens, seus casamentos, seus filhos, não se envergonha de falar ao que é inanimado, e pede saúde ao que é desprezível. (Sab 13.11-17)

3. Um pai aflito por um luto prematuro, tendo mandado fazer a imagem do filho tão cedo arrebatado, honrou, em seguida, como a um deus aquele que não passava de um morto, e transmitiu, aos seus, certos ritos secretos e cerimônias. Este costume ímpio, tendo-se firmado com o tempo, foi depois observado como lei. (Sab 14.15-16)

4. Foi também em conseqüência das ordens dos príncipes que se adoraram imagens esculpidas, porque aqueles que não podiam honrar pessoalmente, porque moravam longe deles, fizeram representar o que se achava distante, e expuseram publicamente a imagem do rei venerado, a fim de lisonjeá-lo de longe com seu zelo, como se estivesse presente. Isto contribuiu ainda para o estabelecimento deste culto, mesmo entre os que não conheciam o rei. Foi a ambição do artista, que, talvez, querendo agradar ao soberano, deu-lhe, por sua arte, a semelhança do belo. E a multidão, seduzida pelo encanto da obra, em breve tomou por deus aquele que tinham honrado como homem. (Sab 14.17-20)

5. Eis, portanto, um oleiro que amassa laboriosamente a terra mole, e forma diversos objetos para nosso uso, mas da mesma argila faz vasos destinados a fins nobres e outros, indiferentemente, para usos opostos [pinicos]. Para qual destes usos cada vaso será aplicado? O oleiro será o juiz. Do mesmo barro forma também, como obreiro perverso, uma vã divindade, ele que, ainda há pouco, nasceu da terra, e em breve voltará a ela, de onde foi tirado, quando lhe serão pedidas as contas de sua vida. (Sab 15.7-8)

EGITO - UM PESADELO FILOSÓFICO

O autor de Sabedoria discorre em longos trechos sobre os animais das pragas lançadas sobre o Egito,  os animais repugnantes, a praga da escuridão em especial e o maná. Uma vez que o texto do Êxodo é muito menos detalhado a respeito disso, podemos supor que se tratam de elucubrações das quais se ocupariam, isso é claro, um filósofo grego. Sua dedicação a expor os detalhes intimistas do Êxodo nem deixa espaço para o conto histórico! É nesses trechos finais sobre a idolatria e o Êxodo que vemos a brilhante humanização do relato bíblico, com a transposição para os sentimentos humanos de assuntos fortemente teológicos. Por exemplo, é muito clara a separação entre animais estúpidos, desprezíveis, etc (sapos, moscas, vespas) e os outros animais (codornizes, bois, etc). A diferenciação, entretanto, é imputada a Deus, num legítimo processo de generalização (se eu não uso... então não serve para nada):

... os mais odiosos animais, que são piores ainda que outros animais irracionais, e nem mesmo possuem o que outros seres viventes possuem: bastante beleza para serem amados, que foram excluídos de aprovação e da bênção de Deus (Sab 15.18-19)

... aqueles [os egípcios], mau grado a sua fome, diante do aspecto hediondo dos animais enviados contra eles, experimentaram a náusea; estes [os hebreus], após uma curta privação, receberam um alimento maravilhoso [codornizes caídas do céu] (Sab 16.1-3)

O maná também é idealizado como um “alimento dos anjos” nessas elucubrações filosóficas, de uma forma que não aparece no Livro do Êxodo nem em qualquer outra parte da Bíblia.

... foi com o alimento dos anjos que alimentantes o vosso povo, e foi do céu que, sem fadiga, vós lhes enviastes um pão já preparado, contendo em si todas as delícias e adaptando-se a todos os gostos... Ela se adaptava ao desejo de quem a comia, e transformava-se naquilo que cada um desejava. ... O que não era destrutível pelo fogo fundia-se ao calor de um raio de sol. (Sab 16.25-27)

Sabores são impossíveis de se descrever em palavras, mas o Livro do Êxodo coloca que o maná simplesmente tinha o sabor de uma torta de mel. Esperemos que todos imaginassem o mel então... Quanto aos 3 dias de densa escuridão lançados sobre o Egito (Ex 10.21), as elucubrações também são notáveis:

Mesmo o canto mais afastado em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: ruídos aterradores ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto lhes apareciam. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a luz brilhante dos astros era impotente para alumiar esta noite sombria. Mas aparecia-lhes de súbito nada mais que uma chama aterradora, e, tomados de terror por esta visão fugitiva, julgavam essas aparições mais terríveis ainda ... dormiam num mesmo sono, agitados, de um lado, pelo terror dos espectros, e paralisados, de outro, pelo desfalecimento da alma ... O silvo do vento, o canto harmonioso dos passarinhos nos ramos espessos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam, a carreira invisível dos animais que saltavam, os urros dos animais selvagens, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo os paralisava de terror. Enquanto o mundo inteiro era alumiado de uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava às suas ocupações, somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde os deviam acolher; e eram para si mesmos um peso mais insuportável que esta escuridão. (Sab 17) 

Contudo, para vossos santos havia uma luz brilhantíssima. Sem verem seus semblantes, os outros ouviam-lhes a voz, e julgavam-nos felizes por não sofrerem os mesmos tormentos. (Sab 18.1)

Assim, a Escuridão no Egito foi  traduzida como medo e pavor na alma dos egípcios. Esse detalhamento de sentimentos vai muito além do texto mais "seco" do Êxodo, e novamente faz parte do pensamento intimista grego, estando quase ausente nos textos sobre “a coletividade” dos judeus.

Na derradeira praga, que exterminaria os primogênitos dos egípcios, o autor enxergou a retribuição pelo massacre dos inocentes quando Moisés foi salvo (Ex 1.15-16; 1.22). Na ocasião, o Faraó havia mandado exterminar os meninos hebreus. Agora, pois um anjo vinha exterminar os meninos egípcios:

Uma mesma sentença feria o escravo e o senhor, o homem do povo sofria o mesmo castigo que o rei. Todos igualmente tinham um número incalculável de mortos abatidos da mesma maneira; os sobreviventes não eram suficientes para sepultá-los. Porque, num instante, sua melhor geração era exterminada. (Ex 18.11-12)

E dessa forma o livro termina, sem um dito sequer sobre os profetas, juízes, ou o reinado de Davi. É provável que nem todo o material da Torá estivesse ao alcance do autor, ou que (o mais provável) a escrita do livro tenha sido deliberadamente interrompida. Afinal, já se constituía em uma obra bem distante dos livros sapienciais como Salmos e Provérbios, tornando-se em uma bela análise humana.

Embora Sabedoria seja um livro extra-bíblico (ao menos para os protestantes), definitivamente trata de uma iniciativa bela (e fantasiosa, claro) de entender ou tornar íntima a história judaica.

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VAI LÊ, FIO, VAI SIM

Ivo Storniolo, Como ler o livro da Sabedoria, Paulus, 1993
Philo of Alexandria - wikipedia

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Santo dorminhoco, Batman !

Personagens que dormiram longamente - Capitão América : resultado de um experimento para produzir super-soldados, ficou preso no gelo após salvar o mundo na 2ª Guerra, sendo encontrado nos dias atuais. Fry : fruto da mente que também criou os Simpsons, esse entregador de pizzas caiu em uma câmara criogênica no ano 2000 e lá ficou até o ano 3000, para encontrar uma Terra povoada de híbridos humano-alienígenas e robôs. Lion : partindo com uma tripulação do planeta Thundera, habitado uma raça de felinos humanóides, ficou adormecido durante os muitos anos de uma viagem interplanetária até o 3º Mundo, uma metáfora da Terra.

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Salmo 127 - cântico dos degraus, de Salomão¹
v2. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono.

Você já teve vontade de conhecer o futuro, quero dizer, um tempo que você não verá com a longevidade normal das pessoas? Talvez falar com um descendente remoto seu... E se um dia você dormisse como sempre faz, indo acordar tranqüilo (e sem envelhecer) muitos anos no futuro?

Na ficção, esse recurso já foi bastante usado. Só para lembrar, alguns dorminhocos famosos que visitaram o próprio futuro são Branca de Neve, a Bela Adormecida, Lion (lembra dos Thundercats?), Fry (para quem conheceu o desenho Futurama, de Matt Groening), John Spartan (Silvester Stallone, em Demolidor), o menino Engi (o avatar, que não é azul nem grandão, mas sim o último dobrador de ar e de tudo mais) e recentemente (!) o Capitão América. Os autores dessas personagens se valeram de recursos antigos, dos quais a Bíblia mesmo (quase) participa, ou pelo menos já participou.

O Salmo 127 sugere que Deus concede a tranqüilidade e o sono àqueles quem Ele ama, garantindo seu sustento independentemente de quanto trabalham ou se esforçam. A idéia parece ser que temos o nosso bem e o nosso mal providos unicamente por Deus, sem nenhuma força de merecimento, mas como parte do plano Dele unicamente. De fato, no livro de Jó vemos um homem que teve muito, e também muito pouco, simplesmente porque o Senhor assim quis, e não porque ele tenha merecido isso.

No século 5, quando pregadores cristãos perambulavam por uma Europa de paganismo local misturado aos deuses romanos, uma interpretação curiosa desses versos surgiu. E ela revelou que se tratava de algo bem mais antigo.  E se Deus fizesse alguém dormir por muito tempo, assim como as personagens acima? Seguem algumas estórias a respeito dos dorminhocos que Deus teria produzido:

OS SETE NA CAVERNA
supostamente ocorrido em 622 d.C.

Durante a perseguição dos cristãos pelo imperador Décio (249-251 d.C.), sete jovens de Éfeso se recusaram a sacrificar aos deuses pagãos como o imperador ordenara, e foram denunciados. Quando chegou à cidade, Décio deu ordens para que fossem presos, mas ele se esconderam em uma caverna próxima dali, pedindo a Deus que os guardasse. Os jovens adormeceram lá dentro e seus espíritos foram até o paraíso, enquanto um anjo guardou seus corpos. Sem encontrar eles, o imperador mandou que a entrada da caverna fosse fechada.

Muito tempo depois, quando a era pagã já havia acabado, um homem procurando pedras para construir sua casa acabou utilizando as pedras que fechavam a entrada. A luz entrou e acordou os jovens, como se apenas houvesse amanhecido. Quando acordaram, pensavam ter dormido por uma noite e mandaram um dos seus, Jâmblico, ao mercado da cidade para comprar pães. Quando chegou à cidade, tudo parecia estranho: os edifícios eram outros, o povo falava livremente sobre Jesus e cruzes estavam gravadas nos portões da cidade. Ele não podia acreditar que era Éfeso!

As moedas que ele levava não serviam mais, e muitos comerciantes pensaram que ele houvesse achado um antigo tesouro. Levaram-no ao bispo da cidade, para quem ele afirmou ser filho de uma das famílias governantes, mas que não reconhecia mais ninguém ali. Quando perguntou sobre o imperador Décio, as pessoas acharam que estivesse louco. Décio morrera havia 372 anos !

O bispo foi levado até a caverna e, vendo que a história era verdade, chamou o próprio imperador Teodósio (379-395 d.C.). Quando esse chegou, disse que construiria um santuário ali na caverna, mas o jovem explicou que aquilo ocorrera apenas para provar a verdade sobre a ressurreição. Ele se deitou junto com os amigos e então morreram. O aparecimento dos jovens tornou-se data de uma festa eclesiástica que o imperador instituiu. Todos os que viram os jovens agradeceram a Deus pelo milagre, e a gruta tornou-se um local muito visitado por peregrinos nos séculos seguintes.

Obs: é um mistério do universo que a data de aparição dos jovens em 622 d.C. de fato não condiga com o reinado de Teodósio, ou mesmo de seu filho Teodósio II. Mais incrível ainda é o fato de a estória ser registrada pelo historiador sírio Jacob de Sarug (450-521 d.C.), antes mesmo de ter acontecido, segundo os números dos anos contidos nela. Se algo é verdade nisso, o período que os jovens dormiram não pode ser superior a 130 anos!

Na época de Teodósio, haviam rivalidades sobre o conceito de ressurreição, que envolviam a política da Igreja. Stephen, o bispo de Éfeso, por exemplo, havia usurpado o posto de seu predecessor após trancá-lo numa prisão. Cogita-se que alguém tenha encontrado alguns corpos preservados numa caverna (o que de fato é comum na região) e que o bispo e Teodósio tenham criado toda a lenda para dar um caráter "divino" às suas concepções, justificando o posto de Stephen com a construção de um santuário.
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A LENDA DE EPIMÊNIDES
600 a.C.

Epimênides era um nativo de Cnossos que vivia em Creta. Pelo cabelo comprido, ele não se parecia com um cretense. Um dia, seu pai o mandou às terras do interior da ilha para procurar uma ovelha perdida. Era meio-dia e fazia muito calor, assim ele desviou-se do caminho e foi cochilar em uma caverna ... onde passou 57 anos adormecido.

Quando acordou, ele pensou que se passara pouco tempo e continuou em busca da ovelha de seu pai. Não a podendo encontrar, voltou à fazenda e encontrou tudo mudado, com outro proprietário ali. Perplexo, ele foi à cidade e lá, ao entrar em sua própria casa, ele encontrou pessoas que não conhecia, querendo saber quem ele era.

Finalmente, encontrou o seu irmão mais novo, agora um homem velho, que lhe falou toda verdade. Epimênides tornou-se famoso em toda a Grécia e foi dito que ele era especialmente querido pelos deuses.

* Havia outras estórias sobre Epimênides, fazendo dele uma espécie de super-herói grego, ou algum tipo de shaman. Contava-se sobre ele curar cidades inteiras, ser um poderoso oráculo, deixar o próprio corpo e voltar, ter entre 157 e 299 anos de idade, possuir uma astúcia miraculosa. etc.
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EBED - MELECH
retirado do Paralipomena Jeremiae cap. 5

  1. Abimeleque foi buscar figos e, descendo de uma árvore, sentou-se à sua sombra para descansar. E inclinando a cabeça no cesto de figos, ele adormeceu e dormiu por sessenta e seis anos, e ele não foi despertado do seu sono.
  2. Depois desse tempo, ele acordou e disse: "Eu ficaria feliz em ter dormido um pouco mais, minha cabeça está pesada porque eu não dormir o suficiente"
  3. Quando ele descobriu a cesta de figos, ele encontrou-os pingando sua seiva leitosa
  4. E ele disse: "Eu quero dormir um pouco ainda, minha cabeça está pesada.
  5. Mas tenho medo de adormecer e se acordar muito tarde, Jeremias, meu senhor, terá uma opinião ruim de mim. Se ele não tivesse pressa, não teria me enviado de madrugada a buscar esses figos.
  6. Vou levantar e continuar no calor e ir depois onde não há calor, nem se trabalha todos os dias."
  7. Então ele se levantou, tomou a cesta de figos e colocou-a sobre os ombros. E ele entrou em Jerusalém, mas  não reconheceu o local, nem a casa ou sua própria família, e ele disse,
  8. "Bendito seja o Senhor, que enviou para um transe sobre mim: Esta não é a cidade.
  9. Eu me perdi do caminho porque vim pela trilha da montanha, quando acordei do meu sono.
  10. Minha cabeça estava pesada porque eu não dormi o suficiente, então eu perdi o meu caminho.
  11. Esta é uma coisa espantosa para dizer a Jeremias, "Eu perdi meu caminho.""
  12. Ele saiu da cidade e quando ele olhou atentamente, viu os marcos da cidade e disse: "Na verdade, esta é a cidade, mas eu perdi meu caminho."
  13. Novamente voltou e procurou, mas não encontrou ninguém do seu próprio povo.
  14. E ele disse: "Bendito seja o Senhor, que enviou um transe grande sobre mim."
  15. E mais uma vez ele saiu da cidade, e lá permaneceu resmungando, pois não sabia para onde ir.
  16. Baixando a cesta, ele disse: "Vou ficar aqui, até que o Senhor tire esse transe de mim."
  17. E, enquanto ele estava sentado, viu um velho chegando do campo. Abimeleque disse a ele: "Eu te pergunto, meu velho, que cidade é essa?" E ele lhe disse: "É Jerusalém."
  18. E Abimeleque disse: "Onde está a Jeremias, o sacerdote, e Baruque, leitor, e todas as outras pessoas desta cidade? Eu não posso encontrá-los."
  19. E o velho disse a ele: "Você é daqui, não é?
  20. Você se lembrou de Jeremias, está perguntando sobre ele depois de tanto tempo.
  21. Jeremias está em Babilônia com o povo, pois eles foram levados cativos pelo rei Nabucodonosor, e Jeremias está com eles para lhes anunciar a boa nova e ensinar-lhes a palavra."
  22. Assim que ouviu isso do velho, Abimeleque disse:
  23. "Se você não fosse um homem velho, e se não fosse impróprio censurar uma pessoa mais velha que a si mesmo, eu iria rir de você e dizer que você é louco, porque você diz  "foram levados cativos para a Babilônia."
  24. Mesmo se as torrentes celestiais tivessem carregado eles, não haveria tempo tempo para ir até a Babilônia.
  25. Quanto tempo se teria passado desde que meu senhor Jeremias me enviou para a fazenda de Agripa buscar figos para os doentes, para que eu possa dar-lhes?
  26. Eu fui e trouxe-os, e quando me deparei com uma árvore no calor escaldante do dia, eu me assentei para descansar um pouco, encostei a cabeça no cesto e adormeci. Supondo que estava atrasado, quando eu acordei, descobri a cesta de figos e encontrei os figos ainda gotejamento seiva, como eu os tinha colhido. E então você diz que as pessoas foram levadas cativas para a Babilônia?
  27. Você pode ver os figos!"
  28. Ele descobriu a cesta de figos para o velho,
  29. que os viu gotejamento seiva.
  30. E quando os olhou, o velho disse: "Ó meu filho,você é um homem justo, e Deus não quiz mostrar-lhe a desolação da cidade, por isso pôs esse transe em em você. Eis que já foram-se sessenta e seis anos desde que as pessoas foram levadas cativas para a Babilônia.
  31. Você pode ver que é verdade, criança, se olhar para o campo e ver que o crescimento das culturas está apenas começando. Observe também os figos, como seu tempo ainda não chegou, e entenda."
  32. Então Abimeleque clamou em alta voz, dizendo: "Eu te agradeço, ó Senhor, Deus do céu e da terra, do resto das almas dos justos, em todos os lugares."
  33. E perguntou ao velho: "Que mês é esse?" e ele respondeu "Nisan, o décimo segundo dia."
  34. Tomando um pouco dos figos, deu-os para o velho e disse-lhe: "A luz de Deus vai conduzí-lo para a cidade acima, Jerusalém".

O tom de humor do autor é óbvio, mais de 1200 anos depois. O contexto da estória está no próprio Paralipomena Jeremiae, cap. 3: depois que o Senhor havia prometido a Jeremias proteger e salvar Abimeleque antes da destruição de Jerusalém, "até eu trazer de volta as pessoas para a cidade" (3.11), Jeremias enviou Abimeleque para longe com as palavras, "leve uma cesta para a terra de Agripa pela trilha da montanha; traga alguns figos nela e dê aos doentes entre os povos" (3.15). Abimeleque seguiu essas ordens, enquanto Jerusalém foi destruída pelos caldeus.

Na Bíblia existem vários Abimeleques, mas nenhum que se identifique com o personagem acima. Provavelmente se trata de um erro de ortografia sobre o nome Ebed-Melech, eunuco etíope que salva Jeremias de uma cisterna (Jr 38) e depois recebe a promessa "Assim diz o SENHOR dos Exércitos, Deus de Israel: Eis que eu trarei as minhas palavras sobre esta cidade para mal e não para bem; e cumprir-se-ão diante de ti naquele dia. A ti, porém, eu livrarei naquele dia, diz o SENHOR, e não serás entregue na mão dos homens, a quem temes." (Jr 39.16-17).
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O RISCADOR DE CÍRCULOS

1ª versão
Choni viveu pouco antes da destruição do 1º templo. Ele estava numa montanha com operários, e quando começou a chover, ele entrou numa caverna, adormeceu. Choni permaneceu dormindo por setenta anos, durante o que o templo foi destruído e reconstruído pela segunda vez. Quando acordou e saiu da caverna, ele descobriu que o mundo tinha mudado completamente. Onde haviam vinhas, agora estavam olivais, e onde havia olivais agora cresciam outras plantas. Ele perguntava às pessoas: "O que está acontecendo no mundo?" E eles disseram: "Você não sabe o que está acontecendo?" Ele disse: "Não." Eles lhe perguntaram: "Quem é você?" e ele disse: "Choni, o riscador de círculos." Então eles disseram: "Ouvimos dizer que quando você entrasse no pátio do templo, ele seria iluminado." Então ele entrou no pátio do templo, e ele estava iluminado. Ele citou o seguinte verso sobre si mesmo: "Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como aqueles que sonham" (Sl 126.1).

2ª versão
Um dia, quando Choni estava andando na estrada, ele viu um homem plantando uma alfarrobeira e lhe perguntou: "Quanto tempo leva para esta árvore dar frutos?". O homem respondeu: "Setenta anos". Choni então perguntou: "Tem certeza que você vai viver mais de setenta anos?". O homem respondeu, "Adulto, eu encontrei as alfarrobeiras já plantada nessa terra e, assim como os meus antepassados ​​plantaram estas para mim, também eu plantarei estas para os meus filhos." Então, ele sentou-se para comer e o sono venceu-o. Enquanto ele dormia, uma cobertura rochosa escondeu-o, e ele continuou a dormir durante setenta anos.

Quando acordou, ele viu um homem apanhando frutos da árvore de alfarroba e perguntou-lhe: "Foi você quem plantou esta árvore?" O homem respondeu: "Eu sou o neto dele". Então Choni disse: "Agora tenho por certo que eu dormi por setenta anos!". Choni foi para sua casa, mas ninguém o reconheceu ou acreditava que ele era Choni Ha-Me'aggel, e o mesmo aconteceu de novo quando ele foi para Beth Ha-Midrash: ele não foi reconhecido e, conseqüentemente, não lhe foi dada a honra devida. Isso o machucou tão profundamente que ele pediu a Deus para deixá-lo morrer, e ele morreu.

Obs: Choni (ou Honi) recebeu esse título após riscar um círculo no chão e dizer a Deus que não sairia dali enquanto não chovesse. Na lenda, Choni não só consegue a chuva mas ainda faz exigências a respeito dela, como uma criança importunado o pai. Aparentemente, Honi ha-M'agel viveu no séc. 1 a.C., participando de alguns movimentos messiânico-proféticos da época, depois do que floresceram as estórias sobre maravilhas feitas por ele.
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Como nos livros apócrifos, temos aqui alguns relatos de pessoas extrapolando a Bíblia em função das SUAS crenças ou das SUAS necessidades. Tudo eram muito mais imaginativo, antes de haver imprensa e alguém espalhar os mesmos textos para todo mundo ver. Hoje, curiosamente, a internet também tem se prestado a espalhar versões "pessoais" de muitas obras, que são ditas anônimas ou pelo menos ninguém se importa com sua origem. Temos chapeuzinho vermelhos nas versões terror, infantil, romance, ficção científica, ação, etc. Menos evidente, há também as interpretações, traduções, transliterações da Bíblia nas versões prosperidade, misericórdia, autoridade, graça, revelação, etc.

Que os cristãos futuros (se os maias estiverem errados quanto a 2012, hehe) possam ter uma visão do nosso tempo como algo mais proveitoso que grandes criadores de estórias pessoais com o nome de Deus, e possamos visitar o futuro como boas lembranças ao invés de pessoas que simplesmente dormiram e esperaram o mundo mudar por si próprio.
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¹ Cântico dos degraus - não se sabe o significado exato do termo, no mundo judaico. Podia significar cânticos para a subida em procissão até o Templo ou para ser feito em tons de voz. Na antiga Bizâncio (Roma Oriental), havia a tradição de associar tons de canto gregoriano - chamados degraus - aos dias da semana.

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sábado, 14 de abril de 2012

3º livro dos Apócrifos

manuscrito etíope do séc 15
clique na figura para ampliar

Porque eu deveria ler livros mais antigos que a bíblia?
Porque são obras de gente como eu e você.
E os da bíblia não são...
São sim, mas eles foram inspirados por Deus.
E estes aqui servem para alguma coisa?
Ajudam a não colocarmos a nossa versão na boca de Deus. São um tipo de contra-exemplo.
Hmmmmm. E tem algum deles na bíblia?

Clicando nos títulos, você lê os textos originais.

Sibilinas, ou Oráculos Sibilinos¹ - são escritos poéticos/proféticos redigidos originalmente em grego e copiando o estilo das obras de Homero. Foram compostos de 140 a.C. (estabelecimento de relações entre protecionistas entre Roma e Israel) até 400 d.C. (começo da desintegração de Roma), quando foram destruídos por ordem de um imperador que viu neles uma afronta ao seu poder. Tais escritos mostram a ampla aceitação de Roma pelas profecias, pois constavam da biblioteca do Senado e do Império para consultas em tempos de crise. Não há qualquer ordem na sua composição, e a mudança freqüente do tema talvez se deva a sua divulgação em caráter privado.

Em sua origem, incluíam "profecias" etruscas, gregas, judaicas e cristãs de conteúdo muito diverso, lembrando acontecimentos anteriores (que contam como antigas previsões), a cidade, imperadores e outros governantes, num contexto de aparente predição do futuro. Tiveram ampla difusão na Roma Cristã e na Idade Média, sendo referência para pensadores e escritores místicos, particularmente em contextos gnósticos e milenaristas. Dada sua popularidade, uma razoável coleção de Sibilinas sobreviveu em várias línguas, contando 12 ou 14 livros (alguns autores subdividem o Livro VIII em três livros). Não se pode determinar o círculo de pessoas para quem foram escritas (o que pode também ser muito diverso) nem seu propósito, exceto a opinião geral de que se trate de propaganda cristã.

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Salmos de Salomão - são textos imitando bem a estrutura dos Salmos, mas que diferem muito quanto à data. Enquanto os Salmos canônicos foram escritos por volta de 1000 a.C. (Salomão reinou entre 970 e 931 a.C.), os Salmos de Salomão foram produzidos entre 70 e 40 a.C., no tempo da invasão de Israel pelos romanos. Criticam duramente os sacerdotes e ricos que entregaram o país ao domínio romano. Além da falsidade quanto à sua autoria, os textos ainda pregam o merecimento do favor divino por obras, o que era uma crença corrente na época dos reis Hasmoneus (que o poder tomaram lutando contra governo grego de Israel).

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Odes de Salomão - assim como os Salmos de Salomão, sua autoria é uma fraude. São textos provenientes de muitos lugares de Roma, em várias línguas e escritos durante a perseguição de Roma aos cristãos, que foram lentamente reunidos. Contém referências cristãs como nascimento virginal, batismo, descida ao inferno e a trindade, mas também referências gnósticas² como exaltação à sabedoria, um salvador que seria salvo por outro e um Pai com seios. A colocação da palavra Aleluia no final de todas as odes, o uso de plural e a descrição de gestos para a oração  (mãos erguidas, separadas, com as palmas para fora) sugere que eram textos de serviços religiosos.

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Apocalipse Siríaco de Baruque (II Baruque)³ - foi composto em 60 - 100 a.C., logo após a destruição de Jerusalém em 70 d.C.. Apresenta Baruque não como secretário de Jeremias, mas como profeta e bastante superior a este. É um misto de oração, lamentação e visões, com um estilo de escrita próximo a Jeremias. 

Além da falsa autoria, o texto erra logo no início, quando coloca sua data no 25º ano do rei Jeconias, que reinou por 3 meses aos 18 anos de idade. O livro trata da sobrevivência do povo judeu após a destruição do 2º Templo, mostrando um Deus vingativo, que deseja punir seu povo mas é aplacado pela argumentação de Baruque. Esse Deus é quase humano e sua divindade se restringe ao papel comunitário. Apesar disso, Deus explica que Jerusalém foi destruída por anjos e destina um recado a Jeremias, o profeta (porque não falaria em 1ª mão?). Além disso, expõe a destruição de Jerusalém por anjos e não pelos romanos, prevendo uma ressurreição onde os corpos dos mortos voltam da terra preservados, clara referência à ressurreição de Jesus.

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Apocalipse Grego de Baruque (III Baruque) - é um texto re-composto de fontes principalmente eslavas (periferia de Roma), contemporâneo de II Baruque e também trata da sobrevivência após a destruição do 2º Templo. Além das influências grega e romano-cristãs (apesar de dizer-se um texto judaico), apresenta diversas referências ao mundo persa, podendo mesmo ter influenciado o surgimento do islamismo.

O texto argumenta que o Templo está preservado no céu, completamente funcional e mantido por anjos, não havendo, portanto, qualquer necessidade de reconstruí-lo aqui na terra. Um anjo consola Baruque pela destruição de Jerusalém, levando-o ao Céu para conhecer segredos de Deus (vide a futura história de Maomé) como a carruagem do sol levada por uma fênix, o arcanjo Miguel levando as obras dos justos perante Deus, a maldição lançada sobre a uva (que foi uma planta secretamente plantada por Satanás no Éden), a punição dos construtores da torre de Babel e da serpente do Éden, até que finalmente chega ao portão do quinto céu, o qual somente Miguel é capaz de abrir.

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Omissões de Jeremias (IV Baruque, ou Paraleipomena Jeremiou) - é aceito como canônico pela Igreja Ortodoxa Etíope. Claramente não foi obra de Baruque, tendo sido muito editado, o que dificulta saber quando cada parte foi escrita.

Ao todo, o texto é uma coleção de fábulas: antes da destruição de Jerusalém, Jeremias manda o eunuco Abimeleque colher figos do pomar do rei Agripa, mas o eunuco adormece no pomar e acorda 66 anos depois. Baruque descreve Jeremias como um tipo de Moisés que enterrou os vasos sagrados e atirou as chaves do Templo na direção do sol durante a tomada de Jerusalém, depois convenceu Nabucodonosor a libertar os judeus, que são instruídos a remover todos os estrangeiros do seu meio. Jeremias lidera os judeus "puros" de volta através do Jordão e oferece sacrifício em Jerusalém pelo dia-do-perdão. Os judeus que ficam com suas esposas pagãs não retornam, fundando depois a cidade de Samaria. Jeremias desmaia enquanto sacrifica, ressuscitando após 3 dias, quando passa a louvar Deus para a redenção através de Jesus Cristo (!). Baruque ainda pega os figos frescos (de 66 anos atrás!) e viaja para a Babilônia com uma águia capaz de ressuscitar homens.

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Assunção de Moisés - foi descoberto como um manuscrito incompleto por Antonio Ceriani na Biblioteca Ambrosiana de Milão, no séc. 19. Embora o autor se diga Moisés e fale em forma profética prevendo o futuro de Israel, o estilo corresponde à forma de escrita dos fariseus da época romana, sendo datado como do séc. 1 a.C.. Depois, novas análises mudaram a data provável para 7-30 d.C., o que mostra que o texto, na verdade, conta a história conhecida e se faz passar por profecia antiga já cumprida.

No cap. 1, antes de morrer, Moisés escolhe Josué como sucessor e deixa os livros que ele deve preservar até o fim dos dias, quando o Senhor vai visitar o seu povo. Os caps. 2-5 contêm uma breve descrição da história judaica até a helenização sob Antíoco IV, narrada na forma de predição. O cap. 6 "prevê" figuras facilmente reconhecíveis como os Hasmoneus e Herodes, o Grande, com seus filhos, seguindo a "previsão" até a destruição parcial do Templo. O cap. 7 é sobre o fim dos dias. O cap. 8 "prevê" a perseguição de judeus pelos hipócritas, provavelmente se referindo às rebeliões antes dos macabeus. No cap. 9, Moisés fala do levita Taxo e seus sete filhos, que se refugiaram das influência grega numa caverna. O cap. 10 conta como Deus  irá punir os gentios e exaltar Israel, e como um mensageiro de Deus já profetizado, com tarefas sacerdotais, irá vingar Israel. Os caps. 11 e 12 concluem o texto com Moisés exortando Josué a não temer, pois a história levará já fora feita por Deus.

Alguns escritores antigos como Gelásio e Orígenes citam a Assunção de Moisés fazendo referência à disputa sobre o corpo de Moisés referida no livro de Judas 1.9, entre o arcanjo Miguel e Satanás. Esta disputa não aparece no manuscrito de Ceriani, podendo se referir a um manuscrito conhecido como Testamento de Moisés, mas também poderia ser explicado pela incompletude de texto (acredita-se que cerca de um terço do texto está faltando).

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Ascensão de Isaias - embora descreva eventos do tempo da captura de Jerusalém pelos babilônicos (séc. 8 a.C.), o livro claramente não data dessa época. O estilo de escrita (grego) corresponde ao período de 100 a.C. a 200 d.C., além disso o texto faz claras referências ao cristianismo e à perseguição de Nero aos cristãos. Acredita-se que o livro seja, de fato, uma reunião de diversos manuscritos menores.

A 1ª parte do livro (caps. 1-5), geralmente referido como "martírio de Isaías", se expande sobre os acontecimentos de 2Rs 21. Isaías adverte o rei Ezequias de que seu herdeiro Manassés não seguirá o seu caminho. Quando Manassés assume e a profecia se cumpre, Isaías e outros profetas vão viver em uma montanha no deserto, mas o demônio Belial inspira o falso profeta Belkira a acusar Isaías de traição. O rei condena Isaías à morte. O método da morte de Isaías (serrado ao meio por Manassés) tem acordo com o Talmude Babilônico e Talmud de Jerusalém e provavelmente é aludido pelo autor da Epístola aos Hebreus (Hb 11.37). Essa parte do livro também é hostil com os samaritanos, que haviam sido deixados para trás quando os judeus foram levados à babilônia.

No meio do livro (3.13-4:22) há um fragmento chamado "testamento de Ezequias", que é um apocalipse descrevendo a vinda de Jesus, a corrupção da igreja cristã, o reino de Belial, e a segunda vinda do Amado. Tudo que é colocado numa espécie de código uma referência à perseguição da Igreja por Nero (37-68 d.C.), e a crença de que Nero era um Anticristo.

A segunda parte do livro (caps 6-11) é chamda "visão de Isaías", e descreve um anjo levando o profeta através dos Sete Céus, antes dos eventos da 1ª parte. A perspectiva é claramente cristão, e o nascimento de Jesus é curiosamente descrito como sendo precedido por Jesus descendo através de cada um dos Sete Céus, onde ele se disfarça como um anjo apropriado para cada um.

O texto existe como um todo em três manuscritos  etíopes dos séculos 15-18, mas fragmentos também sobreviveram em grego, copta, latim e eslavo. Os três textos que o compõem parecem ter sido feitos em grego, mas é possível que o "martírio de Isaías" derive do hebraico ou aramaico original.

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Ainda há outros apócrifos, que nalguma data vamos trazer:
  • O Evangelho segundo os Hebreus (há fragmentos do séc. 2);
  • O Evangelho segundo S. Tiaqo, tratando do nascimento de Maria e de Jesus (séc. 2);
  • Os Atos de Pilatos.(séc. 2);
  • Os Atos de Paulo e Tecla (séc. 2);
  • Os Atos de Pedro (séc. 3);
  • Epístola de Barnabé (fim do séc. 1);
  • Apocalipse de Pedro (séc. 2).
Conclusão

Quase todas as obras consideradas apócrifas foram escritas em épocas de desvalorização da religião ou mesmo perseguição dela. São textos que já foram muito populares e influentes, datando da dominação de Israel pelos romanos, da repressão que ocorreu quando os judeus se rebelaram ou da perseguição romana aos cristãos. Muitos são tentativas de explicar o cristianismo como surgido "naturalmente" entre os judeus, ou re-escrevem as histórias bíblicas aproveitando uns poucos pontos comuns com os textos masoréticos (oficiais). Mediante a opinião de todos os estudiosos que avaliaram a autenticidade dessas obras ou sua inspiração divina, essas obras foram rejeitadas e marcadas como pura criação humana, falha e cheia de erros como deveria ser. Porque as pessoas então fariam tais textos, com a pretensão de os terem como inspirados por Deus?

O autor de Sabedoria de Salomão dá uma dica: "Um pai aflito por um luto prematuro, tendo mandado fazer a imagem do filho, tão cedo arrebatado, honrou, em seguida, como a um deus aquele que não passava de um morto, e transmitiu, aos seus, certos ritos secretos e cerimônias. Este costume ímpio, tendo-se firmado com o tempo, foi depois observado como lei." (Sab 14.15-16). As datas em que os textos foram produzidos também revelam que foram fruto de angústia, feitos por pessoas que conheciam alguns textos sagrados mas não lhes atribuíam dificuldade maior de criação do que elas mesmas podiam produzir, para aplacar o próprio sofrimento. Davi também produziu os salmos em meio a angústias, mas seu conteúdo nega que tenham sido criação dele mesmo.

Os textos mais fantasiosos mostram como os criadores dos apócrifos colocaram na boca de Deus ou de personagens bíblicos tudo aquilo que queriam ouvir, usando o próprio Deus para justificar o que acreditavam. TODOS querem um pai que lhe passe a mão na cabeça, mais raramente aceitando um Pai que lhe force a precisar Dele porque simplesmente fez esse caminho melhor. Lidos com esse entendimento, sem pretender que transmitam verdade maior do que os sentimentos do autor ou ainda que contem eventos conhecidos pelas pessoas da época, os apócrifos são muito valiosos, e talvez isso justifique a sua persistência no conhecimento religioso desde que foram produzidos.

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1. No mundo antigo, os oráculos e profetas eram tidos em grande importância. Tratavam-se de pessoas (chamados Sibilas, que significa vozes) que diziam se comunicar com os deuses e oferecer seus conselhos mesmo aos reis.

1 Sm 9.6. Porém ele lhe disse: Eis que há nesta cidade um homem de Deus, e homem honrado é; tudo quanto diz, sucede assim infalivelmente; vamo-nos agora lá; porventura nos mostrará o caminho que devemos seguir. Então Saul disse ao seu moço: Eis, porém, se lá formos, que levaremos então àquele homem? Porque o pão de nossos alforges se acabou, e presente nenhum temos para levar ao homem de Deus; que temos? E o moço tornou a responder a Saul, e disse: Eis que ainda se acha na minha mão um quarto de um siclo de prata, o qual darei ao homem de Deus, para que nos mostre o caminho (antigamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, e vamos ao vidente; porque ao profeta de hoje, antigamente se chamava vidente).

Contudo, Jesus alertou sobre os que se dizem profetas:

Mt 7.15. Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?

2. Os gnósticos são pessoas filiadas a diversas religiões, que em geral acreditam na aproximação de Deus através do conhecimento de revelações profundas e secretas "escondidas" pelo mundo. Dada a diversidade de grupos que se denominam gnósticos, esses conhecimentos passam por doutrinas e história antigas, suposições a respeito de povos extintos ou mitológicos, magia, super-poderes humanos a serem revelados pela evolução, etc.

3. Baruque ou Baraca (as pronúncias no Oriente Médio variam) significa "abençoador". Baruque é descrito como o escriba de Jeremias, deportado a Jerusalém junto com ele em 586 a.C.. Devido ao significado do nome, recebe muitas interpretações como "salvador" em tradições orientais, sendo representado como branco ou negro (etíope), o que sugere ser Baruque um nome correspondente, na verdade, a várias pessoas. Sua presença nos escritos proféticos e os poucos detalhes de sua vida deram origem a muitas criações literárias onde ele aparece como um santo, substitui Jeremias ou torna-se o grande protetor do povo.

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